

![]() SOBRE EDUCAR COM REFORÇO POSITIVOO decorrer do tempo nos permite aprender muito com a diversidade humana que vai se apresentando ao longo do processo das convivências. Relatarei quatro episódios. Houve uma colega de trabalho. Uma dama, na verdadeira acepção da palavra. Quando a conheci, muito mais jovem que ela, já era uma senhora de porte e conduta respeitáveis. Quando lembro dela, sempre me vem a analogia prazerosa de uma notável dama inglesa. Vestia-se bem, mas notem, realizava este feito por dentro e por fora, de modo que sua elegância de trato se fez notar desde a sua chegada ao departamento. Passou pelo meu setor como a dama que era e não deixou de ser, em vários dos episódios daquela rotina árida de trabalho. E muito tempo depois, sem surpresas para mim, eis que pesquiso sobre ela na Internet e a encontro à frente de importantes projetos sociais de valor. Não declino aqui seu nome, mesmo por consideração à sua habitual discrição e respeitabilidade, mas para os fins deste artigo, menciono a frase utilissima que ouvi dela durante um diálogo sobre a criação de filhos: - Sempre criei meus filhos na base do elogio!... Ela se referiu, obviamente, à prática saudável do reforço positivo no processo educativo, que, quando realizado de cima de um processo pedagógico avançado não salta como fera em cima de características de imaturidade ou de equívocos, ou mesmo de falhas de caráter com estardalhaço, ameaças, exposição em público com frequência mais interessada em relevar o pretenso educador ante a opinião pública, do que em orientar e auxiliar na correção pró-ativa de vidas. Educar na base do elogio, como citado por ela, refere-se ao ato educativo como ao voo do pássaro, que demanda duas asas: o incentivo à maturidade responsável e boas práticas da ética, tanto quanto à autoestima fortalecida pela consciência desperta, sem veleidade, para o reconhecimento dos próprios talentos, virtudes e capacidades. Guardei, pois, comigo, a frase que encontrava ressonância nas diretrizes pessoais no trato com meus filhos. E recordo a comprovação desta tese, passando ao segundo episódio, da minha professorinha de quarto ano - a melhor no que, na época, era chamado período "primário" da educação fundamental. Certamente, foi ela a primeira responsável pelo incentivo a um talento que, desenvolvido, com o passar dos anos me formou em Letras e me fez escritora prazerosa, com vários livros publicados. A querida senhorinha, ao entregar o resultado das provas de redação, fez questão de ler a minha de voz alta para a turminha atenta - a paródia de livre criação, de minha autoria, da história Disney da Branca de Neve! Primeiro forte e eficaz exemplo de educação escolar mediante reforço positivo. A outra lembrança importante avança no tempo até meus anos de faculdade. Quando a excente professora de Literatura Portuguesa, esposa de um catedrático, também professor na mesma universidade e autor de livros de gramáticas no país, ao notar um episódio de certa dificuldade com o conteúdo, comentou comigo em particular, sempre assertiva, mas carismática, encantadora: - Você pode bem mais do que isso!... A destravada da chave positiva foi mais do que suficiente. Pois na prova do mês seguinte, assim como naquele distante quarto ano primário, diante da turma ela fez questão de comentar: - A Christina progrediu este mês esplendidamente! - De acréscimo, elogiando minha nota dentre as mais altas da turma numa temática sensível, como sempre foi Luís de Camões para a maior parte dos estudantes de Literatura. Reforço positivo realizado com sucesso! Por de acréscimo, me fazer chegar à formatura apaixonada pela Literatura Portuguesa, incluindo Luís de Camões! O terceiro e último exemplo, muitos anos depois, já no exercício profissional burocrático do serviço público, quem o ofereceu foi um chefe de departamento. Estrangeiro, e muitíssimo educado e distinto. Eu me equivocara com um detalhe qualquer na produção de um documento que passava pela sua assinatura, e talvez não pela primeira vez. Talvez estivesse numa daquelas fases de bateria baixa, ou de exaustão na fase mais ativa da vida com filhos pequenos, nunca se sabe. Não pretendo me exculpar. O fato é que ele me chamou gentilmente à sua sala e, a portas fechadas, convidou a examinar o documento, comentando com adequada seriedade: - Você se enganou aqui... Olhei, admirada. Algo que me passara completamente despercebido. Um erro indiscutível, embora jamais intencional. - Corrijo de imediato! Desculpe! - Respondi logo, sob certo constrangimento; mas, olhando para os seus olhos claros, aquele constrangimento não me oprimiu. Apenas me compeliu ao justo cumprimento da correção do que me cabia para a assinatura final do diretor, seguindo-se à sua finalidade em instância superior. Encerrou-se ali, com discrição e dignidade, o episódio. A portas fechadas. Nenhuma humilhação, abuso de autoridade. Nada que levasse uma funcionária em posição hierárquica inferior diante do chefe competente a qualquer sentimento de baixa autoestima. Eu me equivoquei. Ele me sinalizou, como se pedia, mas com a atitude de quem alcançou o cargo de destaque naquela instituição por inegável respeitabilidade, junto ao mérito. E respeitabilidade implica, indiscutivelmente, conhecer os desafios e superações sem os quais, junto com o atrito dos erros, não se chega a nenhuma liderança por merecimento. Agradeço a todos estes grandes professores que, ao longo da minha vida, reforçaram e enriqueceram a minha compreensão da eficácia da educação mediante reforço positivo, que me orgulhei de empregar na criação dos meus filhos. Elogios em público. Correções, sempre com o devido respeito, e a portas fechadas. Christina Nunes
Enviado por Christina Nunes em 21/09/2026
Alterado em 22/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|