Zênith

"Estar no mundo sem ser do mundo"

Textos

O ÚLTIMO BALÃO JAPONÊS

 

Aquela vila era humana...

 

Bando de crianças brincando em horas certas, esvoaçavam livres, feito pássaros felizes. Suas correrias eram coloridas pela gritaria eufórica perfumando e enfeitando as tardes...

 

O calçamento era de paralelepípedos...

 

Nas noites frias e estreladas de junho, festas familiares de São João aproximavam vizinhos, numa época em que se cumprimentavam mais demoradamente, olhando nos olhos para além do bom dia, para contar de fato como estavam passando...

 

Balões japoneses coloriam os céus, subindo... para cair logo ali...

 

Estalinhos pipocavam no chão, e as tardes eram ocupadas na confecção dos cordões de bandeirinhas multicores de papel, e as estrelinhas coloridas faiscavam nas mãos das crianças alegres...

 

Músicas!...

 

Ah, as músicas de São João, e a fogueira, enquanto as vizinhas compunham a mesa cheia dos quitutes!...

 

"O balão vai subindo, vai caindo a garoa, o céu é  tão lindo e a noite é tão boa! São João, São João, acende a fogueira do meu coração!..."

 

E havia jardins e árvores nos terrenos. Jaqueiras, mangueiras, goiabeiras, com balanços de corda feitos pelos pais para as suas crianças...

 

Ao longo dos dias, ouvia-se a conversa pacata entre vizinhas, enquanto as crianças brincavam. Os latidos dos cachorros e o miado dos gatos domésticos que nunca, nunca viviam presos, e bebiam leite na tigela e comiam os restos de frango - muito, muitissimo saudáveis e felizes!...

 

O rumor bucólico dos passos dos maridos retornando pontualmente do serviço diário com o cair da noite, e, com o cair da noite, as conversas tranqüilas nas calçadas, ou na intimidade das famílias, nas suas varandas...

 

O que se perdeu?!...

 

Hoje, a vila é asfaltada e fechada, com portão eletrônico e interfone, em nome da segurança...

 

Todas as árvores foram derrubadas em nome de uma limpeza mais fácil...

 

Não há mais bandos de crianças, gritando, brincando, correndo felizes e jogando os seus jogos de tabuleiro...

 

Nas casas agora mais sofisticadas, menos simples, volta e meia, da altura das sacadas silenciosas, um vizinho surge, esquivo. Por vezes fumando... Inspeciona o movimento, e logo desaparece no interior de sua moradia-fortaleza...

 

Não se ouve mais falar das festas singelas de São João...

 

...e, recentemente, soube que boa parte dos excelentes professores da escolinha próxima já faleceu...

 

Sim... naquela outrora vila cheia de vida e calor humano, hoje paira um silêncio frio, quase em preto e branco, na aparente paz da subida asfaltada, supostamente mais civilizada...

 

Vizinhos certamente não se olham mais nos olhos para contar com calma como vão passando, e, sem as árvores, também não existem mais os latidos dos cães domésticos...

 

O colorido das pipas, alegrando o azul límpido dos céus nos períodos de férias...

 

Naquela vila do meu aconchego não se veem mais bandos alegres de crianças, em tempos em que a frieza indiferente das máquinas e do concreto dominou tudo...

 

...ou quase tudo...

 

Porque talvez essas lembranças sejam um último balão colorido no céu noturno, já apagando em declínio...

 

...o último e resistente balão japonês

 

quase caindo, logo ali...

 

 

Christina Nunes
Enviado por Christina Nunes em 05/06/2022
Alterado em 05/06/2022
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