Zênith

"Estar no mundo sem ser do mundo"

Textos


Vêem este artista na foto? 

É Rachid Taha! E é provável que não o conheçam, não aqui no Brasil. É o comum. Rachid não fez parte do panteão artístico midiático do estabilishment.

Digo não "fez" porque, desafortunadamente, nos deixou há quase dois anos, furtado a nós por um enfarto. Mas desconfio de que as razões são bem mais transcendentes. Pois o mundo virou de cabeça para baixo este ano. E sinceramente, Rachid merece descansar e cantar em um mundo melhor. Afinizado com as bandeiras de amor e respeito pelo outro que a vida inteira ele defendeu.

Mais um caso de paixonite de alguma fã ardorosa! - alguém já pode precipitar o julgamento ao ler este parágrafo. Calma! Antes de opinar, leiam mais!

Há uns quinze anos mais ou menos, não sei precisar, este artista veio com seus músicos ao Brasil. Na época eu já gostava da sua música, através da única que deixaram entrar no país, a sua famosa versão da Ya Rayah, do também grande artista argelino Dahmane El Harrachi. Mas não tinha visto antes o Rachid. A internet era de quinze anos atrás. Os smartphones também...

Pois casualmente dei com o Rachid num saguão de aeroporto, sem saber que era ele, o que só descobri depois.

Com a minha filha pequena dormindo em meu colo, caíram várias sacolas no chão. E, no lugar cheio de gente indiferente, ele foi o único que se abalou para me socorrer. Com um sorriso leve e gentil no rosto. Com o seu legendário e bonito chapéu.

E me desmanchei em agradecimentos, sem entender muito bem porque não ouvi a sua voz. Era porque falava árabe! Como iria me responder à saraivada de agradecimentos constrangidos que lhe dirigi? Mas isso também só compreendi mais tarde. Porque, meus amigos, nunca mais o esqueci - e aqui chegamos ao ponto!

Há pessoas que se dão a conhecer inteiramente por um gesto! Por uma energia, uma só marca digital de luz própria! De capacidade de empatia, de humanidade e de generosidade!

E assim era o Rachid, como pude confirmar ao saber melhor, ao longo do tempo, da sua história de vida, auxiliada por meu marido, coincidentemente ou não, um fã!

Mas é assim que acontece: seja lá quem for aquele com quem você esbarra nessas circunstâncias, por cinco minutos que sejam, torna-se impossível esquecer! De alguém que se dá a conhecer por gestos grandes em movimentos discretos! Pela sua capacidade de empatia, amor e solidariedade!

Rachid Taha, um argelino que emigrou ainda na infância com a família para a França, era assim. Um empata natural. Todo o tempo isso, era a sua marca espiritual inconfundível! Esse ser aberto ao outro, às pontes múltiplas feitas,  não importava com quem -pontes culturais, individuais, artísticas!

Curioso, interessado, solidário, incansável defensor do respeito pelos outros, incansável ator contra o repertório de sofrimentos dos imigrantes, contra o mal mundial do preconceito e do racismo, que conheceu de perto e sentiu de perto os estragos, e muito bem!

E sendo assim, cantor solar com um timbre de voz hipnótico e único, compositor sensível e inspirado que imprimiu nas suas letras as difíceis causas de inclusão que defendia... produtor e ator da vida inquieto, envolvido, irreverente, apaixonado, irônico quando se pedia e não se pedia, um criador livre e destemido... este artista, que percorreu mais de cem países, dividindo parcerias com personagens de peso como Brian Eno e Steve Hillage, passou, prática e estranhamente, despercebido nos cenários sociais e culturais manipulados do Brasil!

Não  homenageio Rachid, portanto, por ser "fã" apaixonada, à moda adolescente, amigos!

Aos 55 anos, homenageio um ser humano digno desta acepção tão aviltada nos tempos em que vivemos, e que tive a honra, a sorte e o privilégio de encontrar, de "ver" sua alma de perto; de valorizar, desfrutar, compreender e enaltecer o seu trabalho artístico, e de receber o calor generoso da sua atenção e auxílio em um momento abençoado fugaz!

Homenageio por gratidão entusiasta, porque sei que é mera homenagem a mais, dentre as milhares que já recebeu em vida, e mais ainda após ter nos deixado, em um sem número de países culturalmente mais livres para olhar o artista e a sua arte com "olhos de ver"! Longe da concepção mesquinha da hora que passa, isenta da visão justa de que a arte e o artista têm preponderância contextual, sim, no mundo em que vivemos, a partir do momento em que muitos deles agem com amor, e moldam e influenciam opiniões, modificando a humanidade para melhor - e de que é cruel e imbecil pensar que na crise que o mundo atravessa as dificuldades que eles vivem não são relevantes!

Eu homenageio Rachid Taha pelo que ele é, foi, e nos deixou de contribuição sobre valores que precisamos fortalecer desesperadamente, ou não sobreviveremos! Pelo que ele exemplificou e falou e cantou sobre amor, empatia, respeito pelo outro. Contra o preconceito e a discriminação. Sempre simples, alegre, risonho, provocador, brincalhão e rebelde, em todas as vezes que precisou ser!

Homenageio a singularidade solar deste artista e ser humano: na mais bela, comovente e sensível concepção de quem poderia, o Rachid Taha, ser!

Homenageio como fã. 
Homenageio como muçulmana. 
Homenageio como aquela mãe enrolada de muito tempo atrás em um aeroporto, para quem ele veio com toda a sua simplicidade, com a sua ajuda, com o seu sorriso bonito e
tranquilo!

Shukran, habibi Rachid Taha!
Certamente você mereceu os jardins do paraíso!

Minha admiração ao L'Armêe Méxicaine, sua equipe de músicos, assim por Rachid nomeada, lutando hoje com tempos difíceis.
Pensamentos à familia e amigos, na proximidade dos dois anos da sua despedida, e gratidão e amizade especial ao Yves Fredj Aouizerate, empresário, irmão, amigo de Rachid - sempre gentil no tratamento dispensado aos meus comentários da fanpage, tratando-nos todos como a grande "família de Rachid"!

Rachid Taha
18 / 09/ 1958 - 11 / 09 / 2018


See this artist in the photo?

He is Rachid Taha!  And you probably don't know him, not here in Brazil.  It is the common.  Rachid was not part of the estabilishment's media artistic pantheon.

I say "Rachid was not" because, unfortunately, he left us almost two years ago, stolen from us by a heart attack.  But I suspect that the reasons are far more transcendent.  For the world has been turned upside down this year.  And honestly, Rachid deserves to rest and sing in a better world.  In tune with the flags of love and respect for others that he has defended all his life.

Another case of a fan's passion!  - someone can already precipitate judgment by reading this paragraph.  Calm!  Before giving your opinion, read more!

About fifteen years ago, I don't know, this artist came with his musicians to Brazil.  At the time I already liked his music, through the only one they let into the country, his famous version of Ya Rayah, by the also great Algerian artist Dahmane El Harrachi.  But I hadn't seen Rachid before.  The bad internet of fifteen years ago.  Smartphones too ...

Because I happened to find Rachid in an airport lounge, not knowing it was him, which I only discovered later.

With my young daughter sleeping on my lap, several bags fell to the floor.  And, in the place full of indifferent people, he was the only one who was shaken to help me.  With a light and gentle smile on his face.  With his legendary and beautiful hat.

And I broke down in thanks, not really understanding why I didn't hear your voice.  It was because he spoke Arabic!  How could he respond to the barrage of thanks I addressed to him?  But I also understood that later.  Because, my friends, I never forgot it - and here we come to the point!

There are people who make themselves known entirely by a gesture!  For energy, a single digital brand of its own!  Empathy, humanity and generosity!

And so was Rachid, as I was able to confirm by knowing better, over time, his life story, aided by my husband, coincidentally or not, a fan!

But this is how it happens: whoever you encounter in these circumstances, for five minutes, it becomes impossible to forget!  From someone who makes himself known through large gestures in discreet movements!  For your capacity for empathy, love and solidarity!

Rachid Taha, an Algerian who immigrated to France with his family as a child, was like that.  A natural sensitive.  All the while, it was his unmistakable spiritual mark!  This being open to the other, to the multiple bridges made, did not matter with whom - cultural, individual, artistic bridges!

Curious, interested, supportive, tireless defender of respect for others, tireless actor against the repertoire of suffering of immigrants, against the global evil of prejudice and racism, which he knew closely and felt the damage up close, and very well!

And so, a solar singer with a hypnotic and unique voice, sensitive and inspired composer who imprinted in his lyrics the difficult causes of inclusion that he defended ... producer and actor of life restless, involved, irreverent, passionate, ironic when he needed and did not need, he was free and fearless creator ... this artist, who traveled over 100 countries, sharing partnerships with important characters like Brian Eno and Steve Hillage, went, strangely, unnoticed in the manipulated social and cultural scenarios  of Brazil!

I do not pay tribute to Rachid, therefore, for being a passionate "fan", teen-style, friends!

At the age of 55, I pay tribute to a human being worthy of this meaning so debased in the times in which we live, and because i had the honor, the luck and the privilege to find him, to "see" his soul up close;  to appreciate, enjoy, understand and praise your artistic work, and to receive the generous warmth of your attention and help in a blessed fleeting moment!

I pay tribute for enthusiastic gratitude, because I know that it is a mere homage to more, among the thousands that he has received in life, and even more after he left us, in a number of culturally freer countries to look at the artist and his art with "eyes to see"!  Far from the petty conception of the passing hour, exempt from the fair view that art and the artist have contextual preponderance, yes, in the world in which we live, from the moment that many of them act with love, and mold and influence opinions,  modifying humanity for the better - and that it is cruel and stupid to think that in the crisis the world is going through, the difficulties they are living are not relevant!

I pay tribute to Rachid Taha for what he is, was, and because he left us a contribution on values ​​that we desperately need to strengthen, or we will not survive!  For what he exemplified and spoke and sang about love, empathy, respect for the other.  Against prejudice and discrimination.  Always simple, cheerful, laughing, provocative, playful and rebellious, in all the times it needed to be!

I pay homage to the solar uniqueness of this artist and human being: in the most beautiful, moving and sensitive conception of who could, Rachid Taha, be!

I honor him as a fan.
I honor him as Muslimah. And i love him like that mother curled up in an airport a long time ago, to whom he came with all his simplicity, with his help, with his beautiful and quietly smile!

Shukran, habibi Rachid Taha!
You certainly deserved the gardens of paradise!

My admiration for L'Armêe Méxicaine, his team of musicians so named by Rachid, struggling today with difficult times.
Thoughts to family and friends, about two years after his farewell, and special gratitude and friendship to Yves Fredj Aouizerate, businessman, brother, friend of Rachid - always kind in his treatment of my comments on his page, treating us all as a great "Rachid family"!

 Rachid Taha
 09/18/1958 - 09/11/2018
Sahida
Enviado por Sahida em 02/09/2020
Alterado em 09/09/2020


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras