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CACHORRO VIRA-LATAS (Primeira Crônica Irônica)


Cachorro vira-latas é tido como bichinho forte, bobo e bom. Forte, porque resiste bem às intempéries da vida animal. Costuma não ter nem menos da metade dos fricotes dos bichos de pedigree. 

Bobo, porque sempre abana o rabinho, fiel, humano, para o dono que, por vezes, nos acessos temperamentais que via de regra nada têm a ver com o próprio animal, prega-lhe, de improviso, e nas horas mais inesperadas, vários chutes.

E bom porque é fiel. Não existe animalzinho melhor para se afeiçoar a uma casa e a uma família, quando o assunto é interação humana e animal amorosa, e o resguardo de um lar contra invasores.

Tive uma cachorrinha na infância que deve ter vivido uns bons dezesseis ou dezessete anos, não sei. Chamava-se Pituca. Quando ela já tinha uns quinze, mudamo-nos de residência, de uma casa para um apartamento, e fomos obrigados a cedê-la - minha mãe, em lágrimas copiosas! - para alguém de confiança que nos afiançara que a cuidaria bem.

Nunca me esquecerei da hora em que, sozinha, acompanhei aquela cadelinha com seu novo dono até a entrada da vila onde morávamos, num bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Parecia-me sorrir, a bichinha, inocente da grande traição que praticávamos. Talvez, julgasse que saía para passear, conduzida pela coleira na mão do senhor bondoso que a levava, comigo andando, entristecida, pouco mais atrás, para ver até onde pudesse o animalzinho que me acompanhara os dias desde a primeira infância!

O senhor atravessou o pequeno viaduto com ela. Como resistisse um pouco na passada, olhando-me, a intervalos, curiosa, e sorrindo-me ainda, quando me detive na entrada da rua sem acompanha-la mais, o homem houve por bem pega-la no colo para completar a travessia. Não podiam ficar parados no meio da rua, ou seriam atropelados, após aquele vácuo espontâneo no trânsito. 

Por conta da atitude, levou vários arranhões. E lá se foram, a cadelinha querida, peluda, branca - uma mistura de viralatas com lulu - volta e meia parando e me olhando interrogativa, como se me perguntasse: você não vem?!

Faço essa digressão para citar minha experiência pessoal com um bichinho que, em tudo, foi a confirmação das afirmações que introduzem este texto.

Nas poucas vezes em que os chamados "ladrões de galinha" ameaçavam invadir nosso terreno, lá estava ela, aparecendo de súbito debaixo do abrigo dos degraus onde gostava de se recolher para dormir, fazendo uma balbúrdia que acordava todos na casa, botando para correr o intruso perigoso! Guardo fotos dela sorrindo, literalmente, como se soubesse que posava nas fotografias que tirávamos, tendo-a como companhia. Não me lembro de tê-la visto adoecer uma só vez naqueles quinze anos, para além de alguns enjôos e vômitos por má digestão que, bem tratados, desapareceram com rapidez.

Era um digno exemplo de cachorro vira-latas! Um presente mimoso, oferecido pela minha avó paterna, que me acompanhou a vida dos meus sete ou oito anos, até que eu completasse uns dezenove!

Pois então, cachorro vira-latas é assim. Achamos, por vezes, acolhemos e cuidamos, pegando-os nas ruas, ou nos terrenos baldios, sem precisar pagar a petshops quase o preço de uma casa, em dependendo de qual pedigree sejam ou não portadores.

E, via de regra, possuem estas características: com cuidados não mais que domésticos, muitas vezes sem a necessidade de tantas idas a um veterinário para sanar e adivinhar moléstias renitentes e insuspeitadas, que os animais de raça apresentam de uma hora para outra apesar de todos os mimos de seus ricos proprietários, são robustos de si! Aguentam o tranco, as intempéries. Quando de rua, notamos que estão somente maltratados, famintos, ou, quando muito, com doenças leves, que um bom tratamento recupera com facilidade.

Recordo-me de um infeliz pastor alemão que agonizou meses na casa de um vizinho, se arrastando nas patas dianteiras até morrer, uivando dia e noite, dando dó naquela mesma vizinhança que conhecia o animal de muitos anos, e que acompanhou, de perto, o seu sofrimento. O dono, um homem não exatamente mau, benquisto nas cercanias, entretanto, não quis gastar dinheiro com o tratamento para o bicho de suposta estimação. E não porque lhe faltassem recursos, ao contrário! Fora comerciante próspero e bem sucedido! Mas, mesmo assim, deixou-o morrer, a míngua de cuidados.

Vejam bem, não quero que antecipem nessas palavras, com a moda vigente hoje em dia, algum tipo de preconceito contra os animais de raça. Os traços da "humanidade animal", por assim dizer, reiteradamente, nos comovem em imagens e notícias, fazendo corar de vergonha até mesmo nós, os "humanos", ao presenciar, nos bichos irracionais de quaisquer raças e espécies, atitudes "humanitárias", para com eles mesmos e para com os humanos! Atos de que muitos seres humanos, tidos como "respeitáveis", sequer jamais se aproximaram voluntariamente em favor do seu próximo!

O que quis realçar aqui foi uma misteriosa realidade constatável por qualquer um que se detenha a observar certas nuances, porque a vida parece funcionar dentro deste estranho paradoxo: o cachorro vira-latas dócil, fiel, robusto, bondoso, de longe é mais longevo, resistente, e, por consequência natural, servil, dentro de uma interação familiar saudável entre seres humanos e animais, onde exista carinho e troca de cuidados!

A cachorros vira-latas nunca se viu necessidade de se dispensar privilégios; não se paga uma fortuna pelo prazer de cuida-los e de manter, com eles, uma convivência doméstica. Aos de raça, ao contrário, e indiscutivelmente, sim! Por uma espécie de marca, ou rótulo de nascença, lhes são conferidos considerações e privilégios distintos, e preços astronômicos; no entanto, o pedigree raro, valioso, não os livra de uma fraqueza intrínseca que lhes é inerente, sabe-se lá Deus porquê!

Mas, quando ambos morrem, o viralatas servil, resistente, fiel, e o cão de raça por vezes melindroso - em dependendo do caso - chora-se pelos dois. Dói-nos na alma, como dói a despedida de qualquer ente querido.

Mas, pelo cachorro vira-latas, coitado, diligente, afável como poucos, apesar de tudo nenhuma lágrima a mais será derramada, do que igualmente se chorará pelo, está certo, amado poodle caríssimo, e eventualmente genioso, traiçoeiro e irritadiço, que gastava os dias latindo, adoecendo, e avançando, sem mais nem menos, em cima de todo mundo!

Afinal, somos todos animais!...
Christina Nunes
Enviado por Christina Nunes em 29/11/2014
Alterado em 29/11/2014
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