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"O Que Fazemos Em Vida, Ecoa na Eternidade"

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NA GAVETA DO CAIXÃO

NA GAVETA DO CAIXÃO

Estou na minha fase francesa. Recebendo do querido Iohan, meu mentor do invisível, o ditado psicografado de mais um livro, cujo enredo se passa nos idos do sul da França cátara, a atmosfera das reminiscências nostálgicas já me embrulhou como num casulo, e agora até o meu corte de cabelo, talvez, reflita a merecida homenagem aos cristãos martirizados no Languedoc.

Em quantos lugares deste vasto mundo já vivemos? Em quantos climas? Quantos dramas, alegrias, lágrimas e idiomas? Impossível deduzir, sobretudo no minuto de memória embotada no qual nos demoramos, quando em estágio na materialidade mais densa do planeta. Mesmo assim, tendo esta realidade já bem clara diante da compreensão, para alguém a quem já é ponto pacífico a extensão infinita dos nossos percursos passados e futuros, impossível não se solidarizar. Não se condoer e sofrer junto, diante das imagens bestiais a que assisti na tv ligada diante de mim esta semana, no horário de noticiário noturno!

Um estudante brasileiro em Dublin. Arrumado, parecia estar diante do local de estudo entre vários outros estudantes. Todavia, caído ao chão, sendo massacrado de pancadas e chutes. Gritos femininos ouvidos ao redor denunciavam que algumas almas boas se horrorizavam com a cena deplorável de xenofogia explícita em curso. O repórter explica: os jovens irlandeses partidários desta conduta não aceitam estrangeiros em seu país. Ao que se percebe, julgam-se raça superior, que não pode ser contaminada, maculada com a convivência de um estrangeiro considerado de sangue "impuro". Assim, não há piedade! O rapaz, caído ao chão, em provável choque, ainda tenta se levantar, ergue o braço em defesa, como quem pede clemência, alguma mostra de humanidade de quem ainda supõe - infeliz dele! - ser um representante humano! O que recebe em troca, todavia, são outros chutes, brutais, violentos, de mais de um, que enfim o nocauteiam e levam-no à perda de consciência.

Vendo o que aconteceu, o irlandês e seus comparsas correm. Nota-se alguns poucos que tentam rechaçá-los, mas não durante a sessão bestial de massacre de um homem jovem. Tendo o pobre rapaz enfim desacordado no chão, temendo o pior, ou ainda a sua implicação no acontecimento absurdo, alguns estudantes o cercam como quem pretende prestar socorro, enquanto os responsáveis pelo crime afinal correm, dando-se por saciados na sua mostra sanguinária de preconceito etnico. O jornalista encerra a notícia com a declaração insólita de que, depois de detidos para prestarem esclarecimentos à polícia, nenhum dos responsáveis foi punido. Foram liberados. E assim, encerrou-se mais um episódio monstruoso, que nos ilustra a que ponto desce um ser humano cujo lume espiritual, íntimo, acha-se por inteiro apagado!

Não sei o nome do estudante. Comecei a olhar a notícia meio distraída, talvez por já me ver farta de cenas deprimentes a mão cheia nos nossos noticiários. Desconheço, assim, maiores detalhes. Se era ele um participante de intercâmbio cultural, de que modo desencadeou-se a situação? Todavia, as cenas dantescas falam por si. Um estudante brasileiro com livros nas mãos, derrubado na rua sofrendo um massacre criminoso diante de dezenas de testemunhas que mal se mexem para acudi-lo, para sustar a mostra bestial de desumanidade!

Doeu em mim, meus amigos! Era como se fosse eu apanhando, humilhada, naquele chão sujo da poeira das dezenas de solas de sapatos que palmilham aqueles caminhos diariamente. Ou alguém crê, em sã consciência, que por se tratar de um chão de rua em Dublin será, talvez, mais livre de bactérias? Luzidio, imaculado? Sem a poeira e a fumaça poluidora do cotidiano das cidades numerosas do mundo?

É, de algum modo, admissível que um ser humano seja superior a outro, dotado de maior inteligência ou de privilégios naturais, por ter nascido europeu, americano, japonês? Ora, mas com as dezenas de vidas já vividas para trás, durante a nossa infinita trajetória espiritual evolutiva, isto se despe por si de lógica, de significado!

Não psicografo, neste momento, uma história vivida no sul da França por personagens, alguns dos quais, que hoje se acham reencarnados aqui no Brasil?! Então de que modo pode alguém, nestas condições, ser superior ou inferior, depois de já ter vivenciado a atmosfera de centenas de culturas, articulado incontáveis idiomas, experimentado em seu corpo carnal os rigores dos mais diferenciados climas ao redor da Terra?! O cadinho efervecente de todos os temperamentos planetários? Os contextos culturais e sociais?!

Em qual gaveta do caixão, ao abandonarmos nossas vestes corporais aos cuidados do generoso solo terreno, levaremos nossa pretensa superioridade de nascimento, de cor de pele, de sangue, de cultura; de conquistas materiais, de rótulos intelectuais?! Onde algum tipo de superioridade que não se comprove e exemplifique, estritamente, em função de conduta - o único testemunho crível de que podemos ser dotados por mérito próprio; de credenciais de algum valor perene, factual, não ilusório?!

Não, amigos leitores, pobres estudantes nascidos em Dublin! Queiram ou não, creiam ou não, possam ou não compreender neste momento, sob o equilíbrio indefectível da ação das leis cósmicas superiores que regem todas as vidas, ao deixarmos neste mundo, de modo inapelável, os nossos despojos corporais, só levaremos conosco o que somos - justo o que trouxemos quando aqui chegamos por último, no ventre materno, destituídos até mesmo de roupas, que o carinho bondoso de nossos familiares nos ofereceram para abrigo e reconforto!

Quais qualidades íntimas, quais atributos louváveis para convivência, portanto, cultivamos, para dar continuidade ao caminho em outras dimensões, em outros mundos, onde outro tanto de seres nos aguardam para dar prosseguimento à jornada? Estaremos, portanto, avançados o bastante para nos fazer dignos de uma convivência cósmica mais ampla, ou ainda restritos à pequena taba do nosso entendimento, na qual admitimos somente os que pretensamente julgamos, como nós, "superiores", com base nas referências falhas, passageiras, mesquinhas, da tonalidade de nossas peles, do idioma que articulamos no presente episódio de nossas rotas; do tanto de dinheiro que possuímos em nossas contas, ou do país perdido na vastidão imensa de um orbe, por sua vez, invisível na grandiosidade incomensurável da orquestração dos mundos rodopiando no infinito?!

Acordemos a tempo! Roguemos à Espiritualidade Superior orientadora dos habitantes deste mundo influência e esclarecimento a todas as almas, visando um despertamento definitivo, para que cenas de tal modo horripilantes nunca mais se repitam na superfície de um planeta generoso que não produziu suas riquezas naturais, seus recursos, estabelecendo regras para a sua distribuição! A vida na Terra, amigos, é, pelo Criador, dispensada de maneira equânime a todos os seres viventes, não importando cor, raça, credo! E, sobretudo, nada disso nos pertence - portanto, não nos caberá direito de levar sequer os nossos nomes!

Na única gaveta do nosso caixão, um dia, caberá apenas o nosso corpo - e mesmo ele será entregue aos cuidados da ação das leis naturais! Despojos da Vida aos cuidados da Vida! E nós, quem de fato somos - o espírito imortal! - seguiremos o caminho rumo a outras experiências, e de encontro a incontáveis renascimentos, que um dia haverão de levar a todos a compreensão definitiva de que o planeta Terra, assim lindo, majestoso como cada produto perfeito do Criador, recebe e acolhe em seu regaço uma única raça, destinada a ser feliz, se assim escolher: a raça humana!

Tudo mais são equívocos! Os resultados profundamente infelizes do produto ainda ríspido do nosso extremo estado de indigência espiritual!

Christina Nunes
Enviado por Christina Nunes em 22/03/2014
Alterado em 22/03/2014
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